Ponto de Encontro com Djalma Argollo


Alma e Morte

A vida é um processo energético, como qualquer outro, mas, em princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso. No fundo, todo processo nada mais é do que, por assim dizer, a perturbação inicial de um estado de repouso perpétuo que procura restabelecer-se sempre. A vida é teleológica par excellence, é a própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo. Todo processo energético se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida, o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial. A curva psicológica da vida, entretanto, recusa-se a se conformar com estas leis da natureza. A discordância às vezes começa já antes, na subida. Biologicamente, o projétil sobe, mas psicologicamente retarda. Ficamos parados, por trás de nossos anos, agarrados à nossa infância, como se não pudéssemos arrancar-nos do chão. Paramos os ponteiros do relógio, e imaginamos que o tempo se deteve. Se alcançamos finalmente o cume, mesmo com algum atraso, psicologicamente sentamo-nos aí para descansar, e embora nos sintamos deslizar montanha abaixo, agarramo-nos, ainda que somente com olhares nostálgicos, ao pico que outrora alcançamos; o medo que antigamente nos paralisava diante da vida, agora nos paralisa diante da morte. E embora admitamos que foi o medo da vida que retardou nossa subida, contudo, exigimos maior direito ainda de nos determos no cume que acabamos de galgar, justamente por causa desse atraso. Embora se torne evidente que a vida se afirmou, apesar de todas as nossas resistências (agora profundamente lamentadas), não levamos este fato em conta e tentamos deter o curso da vida. Com isto, nossa psicologia perde a sua base natural. Nossa consciência paira suspensa no ar, enquanto, embaixo, a parábola da vida desce cada vez mais rapidamente. A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por isto que muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. Subtraem-se ao processo vital, pelo menos psicologicamente, e por isto ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vividas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente. Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida inverte-se a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. Sempre que possível, nossa consciência recusa-se a aceitar esta verdade inegável. Ordinariamente nos apegamos ao nosso passado e ficamos presos à ilusão de nossa juventude. A velhice é sumamente impopular. Parece que ninguém considera que a incapacidade de envelhecer é tão absurda quanto a incapacidade de abandonar os sapatos de criança que traz nos pés. O homem de trinta anos ainda com espírito infantil é certamente digno de lástima, mas um setuagenário jovem — não é delicioso? E, no entanto, ambos são pervertidos, desprovidos de estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas. Um jovem que não luta nem triunfa perdeu o melhor de sua juventude, e um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até à última banalidade. Pobre cultura aquela que necessita de tais fantasmas! Nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização. Entre os primitivos só excepcionalmente se chega a uma idade avançada. Assim, quando visitei as tribos primitivas da África oriental, vi pouquíssimos homens de cabelos brancos que poderiam ter estimativamente mais de sessenta anos. Mas eram realmente velhos e parecia que tinham sido sempre velhos, tão plenamente se haviam identificado com sua idade avançada. Eram exatamente o que eram sob todos os aspectos, ao passo que nós somos sempre apenas mais ou menos aquilo que realmente somos. É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural. Dir-se-ia que sofremos de uma hybris da consciência que nos induz a acreditar que o tempo de nossa vida é mera ilusão que pode ser alterada a nosso bel-prazer. (Pergunta-se de onde a consciência tira a sua capacidade de ser tão contrária à natureza e o que pode significar tal arbitrariedade). Da mesma forma que a trajetória de um projétil termina quando ele atinge o alvo, assim também a vida termina na morte, que é, portanto, o alvo para o qual tende a vida inteira. Mesmo sua ascensão e seu zênite são apenas etapas e meios através dos quais se alcança o alvo que é a morte. Esta fórmula paradoxal nada mais é do que a conclusão lógica do fato de que nossa vida é teleológica e determinada por um objetivo. Não acredito que eu seja culpado de estar brincando aqui com silogismos. Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuímos também ao seu declínio? Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é? O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual. Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim? Por certo, com o zênite a pessoa alcança obviamente este fim, é este fim e possui-o. O que se alcança com a morte? No momento em que talvez se poderia esperar, eu não gostaria de tirar uma fé subitamente de meu bolso e convidar meus leitores a fazer justamente aquilo que ninguém pode fazer, isto é, a acreditar em alguma coisa. Devo confessar que eu também jamais poderia fazê-lo. Por isto certamente eu não afirmarei agora que é preciso crer que a morte é um segundo nascimento que nos leva a uma sobrevida no além. Mas posso pelo menos mencionar que o consensus gentium [consenso universal] tem concepções claras sobre a morte, que se acham expressas de maneira inequívoca nas grandes religiões do mundo. Pode-se mesmo afirmar que a maioria destas religiões é um complicado sistema de preparações para a morte, de tal modo que a vida, de acordo com a minha fórmula paradoxal acima expressa, realmente nada mais é do que uma preparação para o fim derradeiro que é a morte. Para as duas maiores religiões vivas: o Cristianismo e o Budismo, o significado da existência se consuma com o seu término. (Jung, VIII, §798-804).



Escrito por Djalma às 09h06
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Consciente e inconsciente

A experiência no campo da psicologia analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. A razão desta relação é que: 1) os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente: 2) a consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição (que Freud chama de censura) sobre todo o material incompatível, em conseqüência do que, este material incompatível mergulha no inconsciente; 3) a consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano e 4) o inconsciente contém todas as combinações da fantasia que ainda não ultrapassaram a intensidade liminar e, com o correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência. A reunião destes fatos facilmente explica a atitude complementar do inconsciente com relação à consciência. A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência é uma qualidade que só foi adquirida relativamente tarde na história da humanidade e falta, amplamente, entre os primitivos de nossos dias. Também esta qualidade é freqüentemente prejudicada nos pacientes neuróticos que se distinguem dos indivíduos normais pelo fato de que o limiar da consciência é mais facilmente deslocável, ou, em outros termos: a parede divisória situada entre a consciência e o inconsciente é muito mais permeável. O psicótico, por outro lado, se acha inteiramente sob o influxo direto do inconsciente. A natureza determinada e dirigida da consciência é uma aquisição extremamente importante que custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, mas que, por seu lado, prestou o mais alto serviço à humanidade. Sem ela a Ciência, a técnica e a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico. Estas qualidades são absolutamente necessárias para todas as competências, desde o funcionário mais altamente colocado, até o médico, o engenheiro e mesmo o simples "bóia-fria". A ausência de valor social cresce, em geral, à medida que estas qualidades são anuladas pelo inconsciente, mas há também exceções, como por ex., as pessoas dotadas de qualidades criativas. A vantagem de que tais pessoas gozam consiste precisamente na permeabilidade do muro divisório entre a consciência e o inconsciente. Mas para aquelas organizações sociais que exigem justamente regularidade e fidedignidade, estas pessoas excepcionais quase sempre pouco valor representam. (JUNG, Dinâmica do Inconsciente, 1998, § 132-135).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   



Escrito por Djalma às 07h30
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A inflação do ego

Em certo sentido, os velhos alquimistas estavam mais próximos da verdade anímica ao tentarem resgatar o espírito dos elementos químicos, tratando o mistério como se ele estivesse no seio da natureza obscura e silenciosa. Mas ele era ainda externo a eles. A evolução da consciência a um nível superior, mais cedo ou mais tarde deveria pôr fim a essa projeção, devolvendo à alma aquilo que desde o início era de natureza anímica. Mas a partir do Iluminismo e da época do racionalismo científico, o que aconteceu com a alma? Ela fora identificada com a consciência. A alma tomou-se o que se sabia dela. Fora do eu, não existia. Era inevitável pois a identificação do eu com os conteúdos retirados da projeção. Acabara o tempo em que a alma ainda se encontrava "fora do corpo" e imaginava essas "maiora" (coisas maiores) não captáveis pelo corpo. Assim, pois, os conteúdos outrora projetados deveriam aparecer como algo perten­cente à pessoa, isto é, como imagens fantasiosas do eu consciente. O fogo esfriou, transformando-se em ar, o ar tomou-se o vento de Zarathustra e causou uma inflação de consciência. Esta, pelo visto, só pôde ser dominada pelas mais aterradoras catástrofes da civilização, ou seja, pelo dilúvio que os deuses enviaram à humani­dade pouco hospitaleira.

Uma consciência inflacionada é sempre egocêntrica e só tem consciência de sua própria presença. É incapaz de aprender com o passado, de compreender o que acontece no presente e de tirar conclusões válidas para o futuro. Ela se hipnotiza a si mesma e portanto não é aberta ao diálogo. Conseqüentemente está exposta a calamidades que até podem ser fatais. Paradoxalmente, a inflação é um tomar-se inconsciente da consciência. Isto ocorre quando a consciência se atribui conteúdos do inconsciente, perdendo o poder da discriminação, condição sine qua non de toda consciência. No momento em que o destino encenava na Europa, por quatro anos seguidos, uma guerra de tremenda atrocidade que ninguém queria, ninguém por assim dizer indagou quem na realidade a provocara e mantinha. Ninguém percebeu que o homem europeu estava possuído por algo que o privava de seu livre-arbítrio. Este estado de possessão inconsciente prosseguirá até o dia em que o europeu se "assuste com sua semelhança a Deus". Esta transformação só pode começar pelo indivíduo; as massas são animais cegos, como estamos cansados de saber. Por esta razão acho importante que certos indivíduos ou que os indivíduos comecem a perceber a existência de conteúdos que não pertencem à personalidade do eu, devendo ser atribuídos a um não-ego psíquico. Esta operação deve ser empreendida toda vez que se queira evitar a ameaça de uma inflação. Dispomos neste sentido dos modelos úteis e edificantes propostos pelos poetas e filósofos, paradigmas ou "archetypi" (arquétipos), que podemos considerar como remédios para os homens e os tempos. Na verdade porém nada do que lá encontramos pode ser proposto como modelo às massas. Trata-se sempre de algo oculto, que podemos propor a nós mesmos silenciosamente. Poucos são os que reconhecem que isso lhes diz respeito. É bem mais fácil anunciar a panacéia universal às multidões porque assim não somos obrigados a aplicá-la a nós mesmos. É sabido que todo sofrimento desaparece quando muitos se encontram na mesma situação. O rebanho não conhece a dúvida; quanto maior a massa, melhor sua verdade - mas também são maiores as suas catástrofes.

O que podemos aprender com nossos modelos é antes de mais nada o fato de que a alma abriga conteúdos ou é passível de influências cuja assimilação implica os maiores perigos. Os antigos alquimistas atribuíam o seu segredo à matéria; nem Fausto nem Zarathustra nos animam a incorporar este segredo. Assim sendo, só nos resta a opção de repudiar a pretensão arrogante da consciência de ser ela mesma a totalidade da alma, reconhecendo que a alma é uma realidade impossível de ser abarcada com os atuais recursos do conhecimento. Não considero o homem que admite sua ignorância como obscurantista. Obscurantista é muito mais aquele cuja consci­ência não evoluiu suficientemente para reconhecer a sua ignorância (JUNG, O. C,. vol. XII, §563-564).



Escrito por Djalma às 08h39
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Texto de Jung sobre a função pensamento inferior, e suas onsequências

Nossa paciente é uma mulher de cerca de trinta anos de idade. É altamente qualificada, muito inteligente, uma típica intelectual, com uma mente quase matemática. É uma cientista natural, pela educação, e excessivamente racional. Tem muita intuição, que realmente deveria funcionar, mas é reprimida, pois gera resultados irracionais, e que é muito desagradável para a mente racional. Num caso assim, uma pessoa com tal atitude mental, é provável que ela venha ao encontro de uma situação específica, no início da vida, onde essa atitude torna-se inútil. Se o destino é benevolente, caímos logo numa situação difícil. Se o destino não é benevolente, permite que se viva muito tempo com essa atitude e, assim, perde-se muitas oportunidades na vida. Essa mulher caiu em situação difícil aos trinta anos. O que lhe foi muito favorável; é evidente que seu destino é benevolente, pois lhe deu uma oportunidade num momento oportuno. Outras pessoas têm apenas sua chance entre os quarenta e cinco ou cinquenta anos. Tenho visto pessoas que aos sessenta anos, finalmente, descobriram que tinham visto apenas metade do mundo, que eles viveram apenas metade de sua vida, o que é, naturalmente, uma descoberta muito triste, nessa idade. 

Pessoas com esse desenvolvimento unilateral da função pensamento tem, por outro lado uma função sentimento inferior, porque o sentimento é oposto do pensamento. 3 A sensação é então arcaica e possui todas as vantagens e desvantagens de uma função arcaica. A função inferior, geralmente, é caracterizada por traços da Psicologia do primitivo - acima de tudo pela participation mystique - isto é, ela faz com que as pessoas sejam tipicamente idênticas a outras pessoas ou a outras situações. Nossa paciente tinha os sentimentos que as circunstâncias deram a ela. Ela poderia pensar hipoteticamente, mas não poderia sentir hipoteticamente. Como, aliás, sua inteligência foi altamente desenvolvida, ela pôde pensar coisas que as pessoas no seu ambiente não pensaram; ela fez, mesmo, do ser o contrário das outras pessoas, o seu ideal. E porque seu pensamento era tão diferenciado, e tão diferente, das outras pessoas, ele a colocou numa posição estranha em relação a todas as outras pessoas. Não havia nenhuma aproximação, nenhuma ponte para ela. Era isolada, uma tour d’ivoire, e naturalmente sofreu um isolamento frio como gelo.  Ora, seu sentimento de inferior está nas fundações dessa tour d'ivoire e tem passagens secretas, caminhos subterrâneos por onde pode escapar; e porque é cego como uma toupeira, não se sabe onde ele vai aparecer. Mas se pode ter certeza de que ele estabelece conexões em algum lugar. Se se estiver absolutamente isolado, como um farol no mar, para que ninguém possa se aproximar, se se estiver perfeito em na função perfeitamente diferenciada, então, por baixo, algo escapa durante a noite. Cava passagens subterrâneas e penetra, talvez, em outras pessoas. Essa mulher é racional, casada, propagou a espécie, uma pessoa bem normal, portanto; mas ela é completamente só. Obviamente, muitas pessoas casadas não são particularmente conectadas, e outras pessoas que não são casadas, são capazes de conectar-se muito bem. Pessoas, frequentemente, se casam porque é uma instituição, e esta é uma coisa racional a fazer, mas não acontece uma união real. Portanto, é absolutamente inevitável que, quando não se vive uma vinculação, esse sentimento simplesmente não pode subir para as alturas da cabeça; é sobrepujado pelo intelecto e, aparentemente, desaparece, porém reaparece projetado sobre um homem que, evidentemente, não é o marido. É o caso dessa mulher, e existem casos semelhantes com os homens. A falta de relação, pois, é compensada por uma relação mágica súbita, uma fascinação, uma participartion mystique.4 por conseguinte, é geralmente amor à primeira vista e a mais compulsória forma de amor. E, naturalmente, nossa paciente sofreu um problema desse tipo, o que significa um conflito final entre seu pensamento racional e a natureza primitiva.

 

3 A tipologia de Jung é elaborada em Tipos Psicológicos, O. C. vol. 6 (orig. 1921). Brevemente, Jung classifica as pessoas de acordo com duas atitudes, introversão e extroversão, e quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e intuição. O introvertido olha para dentro de si, seu ponto de referência, é a realidade interior; o extrovertido procura fora de si, para definir a realidade através da conexão com os objetos exteriores. A função Pensamento dá nomes e categoriza; a função sentimento dá valor e nuance; a função sensação conduz à realidade concreta, material; enquanto a função intuição enfoca as possibilidades. Embora uma pessoa necessite acessar e desenvolver cada atitude e função, Jung viu a personalidade, muito frequentemente dominada por uma única atitude e função.  

4 Em tipos psicológicos, O. C. vol. 6, par. 871, Jung define participation mystique como uma "conexão psicológica com o objeto, [na qual] o sujeito não consegue distinguir-se claramente do objeto, mas com ele está ligado por relação direta que poderíamos chamar identidade parcial." Jung deriva o termo e a idéia do filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939); veja o seu Les Fonctions mentales dans les sociétés inférieures (1912; tr. Em inglês como: How Natives Think, 1926).

 

(Carl Gustav Jung. Visions. Notes of a seminar given in 1930-1934, p. 6 e 7. Tradução minha).



Escrito por Djalma às 13h10
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O que é sexo

Djalma Argollo

 

(Este artigo é uma atualização de outro do mesmo nome escrito por mim em 1957, e ainda hoje é lido e transcrito em todo o movimento espírita.).

 

Muito se tem escrito e discutido, nos últimos tempos, no movimento espírita a questão homossexual. A discussão, como vem ocorrendo, me parece fora do seu contexto real. Numa boa aplicação do pensamento lógico, antes de se abordar a parte, deve-se conseguir uma clara visão do todo. Está a se debater o homossexualismo, sem haver sido deslindada a problemática sexual.

Sócrates desmascarou a pretensa "sabedoria" de muitos dos seus contemporâneos, pedindo a eles que definissem os termos que usavam. "Incorporando" o método socrático, deveríamos estar questionando os espíritas que pensam: "O que é o sexo?" E não vale a breve resposta: é um sistema orgânico que permite a reprodução das espécies. Não só é uma resposta óbvia, como simplista e incompleta, Senão vejamos, rapidamente: sendo o sexo apenas para perpetuação da espécie, porque muitos animais, em estado de natureza, praticam o homossexualismo, que não atende ‘a finalidade instintiva da reprodução?

Estudando a Codificação e as obras espíritas, psicografadas ou não, tidas como adequadas, por causa dos médiuns e espíritos que as assinam, não consegui, até o momento, fazer uma idéia clara do que, em última analise, seja "sexo". Praticá-lo é uma coisa, saber o que realmente é, outra.

No Livro dos Espíritos, a única abordagem direta sobre o assunto, é a seguinte: "Os Espíritos tem sexos? 'Não como vós o entendeis, porque os sexos dependem da organização. Existe entre eles amor e simpatia, porém fundados sobre a similitude dos sentimentos'") (Livro dos Espíritos, Fundação Lar Harmonia, 2007, questão 200).

Em francês, o termo "organisation" tem os mesmo significados que em português e, também, o "organismo", sendo que, hoje em dia, neste sentido, é empregado, como em português, com um complemento aclamatório: "organização física, corporal, orgânica" etc.). Pela resposta, os espíritos estariam destituídos de sexo, no sentido biológico, isto é, não possuiriam aparelho reprodutor, logo, também não teriam hormônios sexuais em sua estrutura, mas sim uma outra forma de manifestação (não como o entendeis ou seja, diferente daquilo que temos e sabemos). E, pelo que se sabe do mundo espiritual, não poderiam tê-lo, pois seria, enquanto órgão, desnecessário, pois não se reproduziriam (aplicando-se o critério de universalidade dos ensinos dos espíritos ao assunto, não existe um coeficiente expressivo de mensagens que revelem a ocorrências de reprodução sexual entre os espíritos. Uma afirmação de um espírito, através de um médium, segundo Kardec, não constitui nem evidência, quanto mais prova. Qualquer afirmação nesse sentido deveria trazer uma justificativa pormenorizada sobre a questão, bem como uma real explicação do por que não foi abordado até hoje por diversas outras mensagens espirituais). Ainda, segundo a resposta, eles se vinculam no mundo espiritual por "sentimento", por afinidade eletiva.

Fica, contudo, uma pergunta, sendo que o corpo é estruturado e mantido pela organização perispiritual, de onde vem o impulso que fixa, durante a organogênese, a definição do gênero em sentido físico? Há que se buscar respostas efetivas, e não "petitio principii" ou floreios verbais, muito bonitos e emocionantes, mas sem significação concreta, tais como: "almas passivas e almas ativas", pois ainda cabe perguntar: o que são almas passivas, e porque o são, assim como as ativas. Como se vê, uma resposta desse tipo é adiar o problema, e não solucioná-lo.

Freud concebeu o sexo, em ultima analise, como uma forma de energia, a libido. Os teosofistas e hinduístas também se referem a uma energia sexual, própria da alma que, a semelhança da libido, poderia ser "sublimada", ou seja, transferida para outro tipo de atividade do individuo (o que a Psicologia Analítica contesta, porque faz da libido energia própria do psiquismo e não do sexo em particular). André Luiz descreve o sexo como uma manifestação de uma energia específica: o amor, pelo qual os seres se alimentam uns aos outros. Então, dever-se-ia entender que os espíritos, nas Obras Básicas, ao falarem de "amor e simpatia", estariam querendo dizer que a libido é uma energia da alma como um todo? Porém, permanece a questão, o que é o sexo? O que faz ele se diferenciar, quando a alma encarna? Uma especulação: será que essa definição é uma prerrogativa genética? Isto é, será que a fusão dos gametas masculinos e femininos, em condições normais, estabelece, aleatoriamente ou segundo um impulso do inconsciente do reencarnante, o seu gênero orgânico? Como disse, essas considerações são meramente especulativas.

É necessário, portanto, que, a partir de princípios solidamente estabelecidos, se possa discutir, não só o homossexualismo, mas todas as formas de manifestação da sexualidade, sem pré-conceitos nem hipocrisia, como atualmente acontece me larga escala no movimento espírita.

Inclusive tem de se abordar, com mais profundidade, a prática sexual de forma geral. E não falo apenas de perversões ou sexolatria, mas sim da "normalidade" da prática sexual. Porque, senão, estaremos a dividir o mundo entre os certos (aqueles que praticam o sexo normal) e os errados (os que se permitem variações diversas durante a prática), o que é um preconceito absurdo. E o que é "normal", na prática sexual? Existirá um "check list" de atos, atitudes, palavras e pensamentos que podem, ou não, serem realizados durante o ato sexual? É dito que o instinto é uma inteligência que mais acerta do que a volição, ora, o que muitos chamam de desvios morais na prática sexual é moeda corrente no mundo animal. E agora? Não se venha que o argumento de que não somos animais, porque o somos. O sexo entre parceiros sem compromisso matrimonial é certo ou não? Para mim essa é uma pergunta retórica, pois os costumes já estabeleceram essa prática como socialmente normal, desde a revolução sexual que a pílula anticoncepcional provocou. Isto sem referência ao adultério, que, eticamente significa uma deslealdade entre parceiros comprometidos. Ora, com tantas coisas a serem resolvidas, que dizem respeito à vivência sexual, espero que os que vivem a "ditar cátedra" quanto a homossexualidade, já tenham resolvido estas "simples" questões em suas vidas.

De minha parte, posso dizer que ainda estou meditando sobre elas, e buscando respostas, e isto sem enfrentar a angustiante problemática da homossexualidade, que os preconceitos estigmatizam de forma cruel, e no caso do Movimento Espírita, em atentado à Lei do Amor e Caridade.



Escrito por Djalma às 09h18
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Tales de Mileto

Tales nasceu em 640, provavelmente em Mileto, originário de pais fenícios, ao que se afirma, e hauriu grande parte dos seus conhecimentos no Egito e no Oriente Próximo; aqui vemos, como que personificada, a passagem da cultura do Oriente para o Ocidente. Tales parece ter-se tornado negociante apenas para adquirir os bens ordinários da vida; toda gente sabe a história da sua proveitosa especulação com as prensas para azeite.

 

(Deixemos a narrativa a cargo de Aristóteles: "Dizem que Tales, tendo percebido, através de seus profundos conhecimentos astronômicos, que aquele ano iria ser de grande fartura de azeitonas, alugou, ainda durante o inverno, a preços baixos, todas as prensas para azeite existentes em Mileto e Quios, sem que ninguém a isso se opusesse. Mas quando chegou a ocasião da safra, sendo inúmeras as pessoas que as desejavam, Tales as cedeu com alto lucro; e conseguindo muito dinheiro com a especulação, a todos convenceu de que era facílimo aos filósofos enriquecerem, quando a isso se decidiam.")

 

Depois entregou-se ao estudo, com absorvente devoção, a qual bem se deduz da célebre queda que levou enquanto observava as estrelas, não dando pela existência de uma vala em seu caminho. A despeito da vida solitária, interessou-se pelos problemas da cidade; conheceu intimamente o ditador Trasíbulo, e advogou a federação dos estados jônios para a mútua defesa contra a Lídia e a Pérsia. A ele a tradição unanimemente atribui a introdução da ciência matemática e astronômica na Grécia. Contam os antigos como no Egito ele calculou a altura das pirâmides pela medição da sombra, baseando-se na relação entre a sombra e a altura de um homem. Voltando à Jônia, Tales continuou o estudo sedutoramente lógico da geometria como ciência dedutiva, e demonstrou vários dos teoremas mais tarde coligidos por Euclides.

 

(Que um círculo é dividido ao meio pelo seu diâmetro; que 05 ângulos básicos de qualquer triângulo isósceles são "similares" (iguais); que o ângulo em um semicírculo é um ângulo reto; que os ângulos opostos formados pela interseção de duas linhas retas são iguais; que dois triângulos tendo dois ângulos e um lado respectivamente iguais, são iguais entre si).

 

Assim como esses teoremas fundaram a geometria grega, do mesmo modo seus estudos de astronomia estabeleceram as bases desta ciência para a civilização ocidental, desembaraçando-a das associações com a astrologia. Fez várias observações de menor porte, e assombrou a Jônia com a exata predição de um eclipse solar para o dia 28 de maio de 585 A. C., baseando-se, provavelmente, nos registros egípcios e nos cálculos babilônicos. Suas teorias do universo não se mostraram muito superiores à cosmologia dos egípcios e judeus. O universo, pensava ele, era um hemisfério em repouso sobre uma infinita expansão de água, e a terra não passava de um disco chato a flutuar sobre a face plana do interior do hemisfério. Isso faz-nos lembrar a observação de Goethe, de que os vícios (ou erros) de um homem pertencem igualmente à sua época, ao passo que suas virtudes são exclusivamente próprias.

Da mesma forma que os mitos gregos fizeram de Oceanus o pai de toda a criação, assim também Tales concluiu ser a água o princípio essencial de todas as coisas, sua forma original e finalidade. Talvez, diz Aristóteles, tivesse ele chegado a tais conclusões em conseqüência da observação de que "a umidade é a seiva de todas as coisas e que... as sementes de todas as coisas possuem natureza úmida. .. e que aquilo de que se geram todas as coisas é sempre o seu princípio original". Ou talvez acreditasse que a água fosse a mais primitiva ou fundamental das três formas - a gasosa, a líquida e a sólida - nas quais, teoricamente, todas as substâncias podem ser transformadas. A significação do seu pensamento não repousa no objetivo de reduzir todas as coisas a água, mas de condensá-las numa só matéria; foi esse o primeiro monismo assinalado pela história. Aristóteles descreve como materialista a visão de Tales; mas Tales acrescenta que todas as partículas do mundo são vivas, que matéria e vida são inseparáveis e perfazem uma só coisa e que existe uma “alma” imortal nas plantas e nos metais, tanto como nos homens e nos animais; a força vital evolui na forma, mas nunca morre.  Tales queria dizer que não há nenhuma diferença essencial entre vivos e mortos. Quando alguém procurou confundi-lo, indagando por que, então, ele escolhia a vida em vez da morte, respondeu: "Porque não há diferença entre uma e outra". Em sua velhice recebeu, por unanimidade, o título de sophos, ou sábio; e quando a Grécia veio a escolher os seus Sete Sábios colocou o nome de Tales em primeiro lugar. Perguntando-lhe alguém o que considerava a maior dificuldade, respondeu com o famoso apotegma: "Conhecer-se a si próprio". Novamente interrogado sobre o que achava mais fácil, respondeu: "Dar conselhos". A pergunta, "que é Deus?" - "Aquilo que não tem nem princípio nem fim". Interrogado como poderiam os homens viver com maior virtude e justiça, respondeu: "Nunca fazendo o que criticam nos outros". Tales morreu, diz Diógenes Laércio, "quando presenciava, como espectador, uma competição de ginástica, vítima do calor, da sede e da fraqueza, pois estava muito velho". Tales, diz Estrabão, foi o primeiro a escrever sobre fisiologia, i. e., sobre a ciência da natureza (physis), ou sobre o princípio da existência e desenvolvimento das coisas. Sua obra foi levada avante com vigor pelo discípulo Anaximandro, que, embora tivesse vivido de 611 a 549 A. C., expôs uma filosofia surpreendentemente semelhante à que Herbert Spencer, tremulamente ufano da sua própria originalidade, publicou no ano de 1860 de nossa era (Will Durant, História da Civilização, 2a. parte, tomo I, 3a. edição, 1957, Cia Editora Nacional, São Paulo - SP.  pags.177-179),



Escrito por Djalma às 15h56
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Músicas eternas



Escrito por Djalma às 19h38
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Músicas eternas



Escrito por Djalma às 19h29
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Bem, mal e inquisidores

Heráclito de Éfeso afirmava que a guerra é a mãe de todas as coisas e de todas as coisas a rainha. E isto acontece porque tudo se gera a partir de contrastes, de opostos que se embatem num fenômeno de enantiodromia, e terminam por se conciliar, graças à função transcendente, para criar a harmonia, pois aquilo que é diferente concorda consigo mesmo.

Todo o Universo se apresenta como um imenso campo de opostos que se entrechocam, para criar novas oportunidades de diferenciação, que se entrechocarão em novo nível. Sem opostos que se digladiem, não é possível haver evolução. Como o que está em cima é igual ao que está embaixo, no psiquismo humano, que é um fenômeno da Natureza, os opostos se fazem presente e guerreiam entre si, provocando crises que produzem o desenvolvimento pessoal. Bem e mal são, na alma, opostos que se desafiam e promovem, pela resolução, a ampliação da consciência, a harmonia interior.

O Espiritismo ensina que tudo o que existe é produto de uma evolução, que vem dos primórdios da Natureza. Ficando apenas no aspecto biológico, o espírito através dos reinos vegetal e animal, em seus diversos gêneros, famílias, filos e espécies. E quais foram nossas vivências e aprendizados nestes períodos? Um exercício continuado de violência, dissimulação e egoísmo puro e simples, na chamada luta pela vida. A Natureza é brutal, violenta e não poupa nenhum ser.

Como seres humanos, somos classificados na espécie dos mamíferos, como um ramo dos animais superiores, diferindo deles, apenas, pela ego-consciência, a qual foi adquirida aos poucos, e em convivência com os instintos, do qual nunca nos livramos, nem podemos.

Ora, é de todo impensável que pudéssemos sair da animalidade inconsciente para a consciente, e virar anjos de bondade e pureza. Logo, o mal é uma condição natural, implícita à própria evolução. Assim, como pode ser culpa do ser humano?

Não é possível esquecer que, embora existam princípios fundamentais de bem e mal, eles são, muitas vezes, relativos aos usos e costumes dos grupos sociais, Dependentes, portanto, das crenças e hábitos desses grupos. O deus veterotestamentário ordenava massacres e genocídios, logo, tais crimes faziam parte da cultura religiosa hebraica, embora, em princípio, o consenso internacional Ocidental os condene atualmente (salvo quando por razões de estado tentam justificar, hipocritamente, o assassinato de mulheres e crianças nas lutas atuais, como infelizes efeitos colaterais. Argumento dos mais canalhas que eu conheço.).

O canibalismo é condenável pela consciência civilizada, mas para muitos povos primitivos é um hábito, um costume, aprendido desde o nascimento. Para o civilizado é um atitude condenável, para o primitivo uma questão de prática religiosa (a qual se mantém, simbolicamente, em muitos rituais religiosos do presente, principalmente no Cristianismo). Nos países do Oriente médio as crianças são ensinadas, pela educação e pelos fatos que sofrem todos os dias, a odiar seus inimigos, e a matá-los, quando possível. Isto é condenável por todos os títulos, mas é prática corrente, costume social, tanto lá quanto em outras partes do mundo. E, normalmente, esse ódio racista, é apresentado como um mandamento divino.

Os fundamentalistas religiosos de todos os credos acreditam, e ensinam, que a fé deve ser defendida até as últimas consequências, até o ponto de eliminação daqueles que a ameaçam, devendo, igualmente serem eliminados os que não a aceitem. E se baseiam em suas escrituras sagradas, para defenderm tais idéias. Toda e qualquer escritura sagrada é ponto de sustentação dos mais absurdos, amorais e imorais conceitos. E, apesar de no Espiritismo não haver escritura sagrada, existem pessoas com esse tipo idéia e comportamento; ainda não torturam e matam porque não têm autoridade para tanto, mas denigrem a honra de suas vítimas, tachando-as de osidiadas ou obsessores encarnados. Mas, apesar da Doutrina Espírita, que segue os ensinos morais de Jesus se opor, doutrinariamente, a tal comportamento; os defensores da pureza doutrinária não estão nem aí; julgam-se os únicos detentores da legítima e verdadeira doutrina estando, os que pensam diferentemente, sendo médiuns das trevas. Interessante, Torquemada e seus colegas inquisidores pensavam da mesma forma, e se diziam: defensores da fé!!!

Concluindo, o mal existe e é um desafio permanente aos seres humanos. Somente será ser superado pela vigilância constante dos próprios pensamentos, sentimentos e das crenças e costumes nos quais se foi criado.



Escrito por Djalma às 10h30
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Notícias

Desde o dia 06 de outrubro de 2009 estou na Flórida ministrando Seminários e Palestras em Centros Espíritas/; estando de volta para Salvador, Bahia. em 18/10/2009.

 No dia 07, palestra em Fort Mayers, na Spiritist Society Seed of Light: "Liberter-se da obsessão: uma mudança de perspectiva na análise da obsessão". 

no dia 08/10, palestra em Deerfield Beach, na Kardecian Spiritist Society of Florida: "Complexo de culpa: como lidar com ele";

Hoje, dia 09/10, em Orlando, palestra no Love and Charity Spiritist Center: "Liberte-se da obsessão: uma mudança de perspectiva na análise da obsessão" ;

No dia 10/10, ainda em Orlando, um seminário no Love and Charity Spiritist Center: "As Faculdades espirituais do Ser: a mediunidade sem mistérios";

Nos dias 11/10 e 12/10, palestras em Deerfield, na Kardecian Spiritist Society of Florida: "Quando o amor veio à Terra: Jesus e a mudança Evolutiva da Humanidade"; "As Faculdades espirituais do Ser: a mediunidade sem mistérios", respectivamente.

No dia 13/10, palestra em Miami, no Conscious Living Spiritist Group: "Quando o amor veio à Terra: Jesus e a mudança Evolutiva da Humanidade";

No dia 14/10, palestra em Coconut Creek no Kardec Spirit Renovation: "Tragédias e Catástrofes: uma análise da Lei de Destruição';

15/10, palestra em Deerfield Beach, na Kardecian Spiritist Society of Florida: "Desenvolvimento Pessoal: uma proposta de individuação";

16/10, palestra em Miami no Bezerra de Menezes Kardecian Spiritist Association: "Complexo de culpa: como lidar com ele";

17/10 e 18/10, palestras  em Deerfield Beach, na Kardecian Spiritist Society of Florida: "Encontro com Jesus: As bases da Evolução Espiritual"; "Liberter-se da obsessão: uma mudança de perspectiva na análise da obsessão".

 

 



Escrito por Djalma às 11h17
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Sincronicidade

A concepção científica do mundo sempre se baseou no princípio da causalidade que, em última análise significa no determinismo de todo efeito ter uma causa. Mas, existem fenômenos que parecem ocorrer fora da complexa rede das conexões causais: os do acaso. Acontecimentos coincidentes que – aparentemente – não têm qualquer nexo causal entre eles. Vejamos um exemplo: uma mulher tirou fotografias de seu filho na Floresta Negra. Mandou revelar o filme na cidade de Estrasburgo. Nesse meio tempo, começou a guerra de 1914, e ela não pôde retirar as revelações, dando como perdidas. Em 1916, a mesma senhora comprou um filme na cidade de Frankfurt, para tirar fotos de uma filha que tivera no intervalo. Ao ser revelado o filme, verificou-se que houvera dupla exposição, pois o filme era o mesmo que mandara revelar dois anos antes (Jung, 1984, par. 831).

É claro que se este fosse um caso isolado poderia ser explicado como um acontecimento casual. Todavia, todos os dias, mundo afora, acontecem fatos semelhantes de objetos que retornam aos seus donos, por vias as mais improváveis, bem como coincidências significativas, sem qualquer compromisso com a lei de causa e efeito, de diversas naturezas. Tenho certeza de que você mesmo terá muitos casos para contar, quer tenha acontecido com você mesmo ou pessoas suas conhecidas.

Como você sabe, antes da revolução na Física, motivada por Einstein e a Escola de Copenhague, a visão newtoniana dos fenômenos era de que os acontecimentos casuais apenas o seriam em aparência, na verdade eram produzidos por uma teia de causalidades que nos escapavam à percepção. Tivéssemos conhecimento de todas as variáveis que compõem o fluir das coisas e, automaticamente estariam explicados todos os acontecimentos, por mais banais e casuais que parecessem. Embora as teorias da relatividade e da mecânica quântica tenham derrubado muitas certezas determinísticas dos cientistas, algumas teimam em prevalecer.

A Física Quântica, todavia, contestou, com provas e resultados, que todo efeito tenha uma causa, e afirmou que todos os fenômenos estão sob o império da casualidade, da aleatoriedade. Isto graças ao princípio da incerteza, elaborado por Werner Heisenberg, em 1927: O produto da incerteza associada ao valor de uma coordenada xi e a incerteza associada ao seu correspondente momento linear pi não pode ser inferior, em grandeza, à constante de Planck normalizada.

Traduzindo em miúdos, de forma analógica: para se descobrir a posição de uma bola dentro de um quarto escuro, podemos emitir algum tipo de radiação e deduzir a posição da bola através das ondas que nela refletem e voltam. Mas. Se quisermos medir a velocidade de um objeto móvel, podemos interpor em seu caminho dois feixes luminosos, calculando o tempo gasto na trajetória entre um e outro. É claro que nenhuma das duas medidas, a da bola e do móvel interfere, significativamente na posição de um, nem na velocidade do outro. Todavia, podem interferir, tanto na posição quanto na velocidade de uma partícula, pois a diferença de tamanho entre o fóton de luz e ela é pequena. Imagine se, para medir a posição de uma lancha usássemos duas barreiras de areia! É claro que a velocidade dela seria alterada, e a medida obtida não refletiria a realidade. No caso da bola, se queremos saber onde ela está, em determinado momento, e jogarmos contra ela um jato de tinta óleo, é claro que poderíamos saber a posição para a qual foi levada e, mas não a original que era o nosso objetivo.

Finalizando: nunca temos certeza da ocorrência de um fenômeno, mas sim a probabilidade de que ocorra. Afinal, como mostrei no início deste livro, a única realidade é a psíquica. Do mundo fora de nós, somente temos representações, e é com tais representações que trabalhamos,  e fazemos inferências. Logo, que certeza podemos ter de estar de posse de verdades verdadeiras sobre os fenômenos da natureza?

Você poderá contestar: Pelos resultados. Olhe a sua volta, a Ciência tem mudado o mundo, graças aos seus estudos e experimentações. E eu retrucarei: Por mais de mil e duzentos anos, usamos para estudar os corpos celestes, prevendo o movimento das estrelas, os eclipses e demais fenômenos do firmamento, o sistema geocêntrico. Ou seja, estudávamos, e prevíamos, com absoluta certeza, as fases da lua, a precessão dos equinócios, etc, com uma teoria que dizia ser a Terra o centro do universo e que, como sabemos hoje, estava totalmente errada.

Paralelamente, em seguida aos estudos da mecânica quântica, os estudos de Joseph Banks Rhine, criaram a ciência parapsicológica, que demonstra a existência de conexões psíquicas, produtoras de fenômenos independentes do tempo e do espaço e, muitas vezes sem nexo causal como, por exemplo, a percepção de acontecimentos futuros, o que atenta contra a lei de conservação da energia. Esses estudos, como os dos fenômenos mediúnicos, apresentam muitas características semelhantes aos estudados pela física nuclear, por serem, também, aleatórios e probabilísticos.

Baseado nesses dois estudos científicos, bem como em sua experiência pessoal, Jung desenvolveu, juntamente com Wolfgang Pauli – prêmio Nobel de Física – o conceito de Sincronicidade, que denominou como um fator hipotético de explicação equivalente à causalidade, pelo seu caráter de simultaneidade. E, como disse acima os fenômenos parapsicológicos, estudados e comprovados cientificamente por Rhine tiveram, também, um peso considerável na estruturação desse conceito:

 

os experimentos de Rhine nos põem diante do fato de que existem acontecimentos que estão relacionados experimentalmente (o que, neste caso, quer dizer significativamente) entre si, sem a possibilidade, porém, de provar que tal relação seja causal, visto que a “transmissão” não revela nenhuma das conhecidas propriedades da energia (Jung, 1984, par. 840).

 

Como fez Rhine, Jung procurou delimitar o campo de seu estudo de forma clara e simples:

 

Os acontecimentos sincronísticos repousam na simultaneidade de dois estados psíquicos diferentes. Um é normal, provável (quer dizer: pode ser explicável causalmente) e o outro, isto é, a experiência crítica, não pode ser derivada causalmente do primeiro (Jung, 1984, par. 855).

 

E Jung esclarece bem isso dizendo que:

 

Um conteúdo inesperado, que está ligado direta ou indiretamente a um acontecimento objetivo exterior, coincide com o estado psíquico ordinário; é isto que chamo sincronicidade (Jung, 1984, par. 855).

 

Dessa forma, é preciso se ter cuidado ao rotular algum acontecimento incomum, principalmente paranormal, de sincronicidade. Por exemplo, um fenômeno mediúnico comum não pode ser chamado de sincronicidade, a não ser que sua ocorrência objetiva tenha sido acompanhada de um estado psíquico correlato e aleatório. Estive tentado a acrescentar e simultâneo, mas Jung ressalta a relatividade do tempo (tanto quanto do espaço) nos fatos psíquicos (quanto físicos). (texto do livro do autor "Desenvolvimento Pessoal")



Escrito por Djalma às 10h45
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O problema dos espíritos que seguiram o "caminho do bem desde o início"

O Espiritismo, que nasceu sob o signo do arquétipo do Si-mesmo, desfez o politeísmo cristão, afirmando, decididamente, o monoteísmo. Mas, como sempre acontece a todo movimento cultural, desde o início, o movimento espírita vem sofrendo a ação do inconsciente dos convertidos, o qual busca, pelo menos, recriar o politeísmo, seguindo o mesmo caminho do Cristianismo: fazendo, primeiramente, de Jesus um espírito à parte: um espírito que nunca encarnou, pois sua encarnação teria sido um mero jogo de aparências e o corpo no qual se mostrava não era físico, mas agenérico; é a revivescência do docetismo, na verdade um neo-docetismo.

Docetismo vem do grego docew, que significa: parecer, ter boa aparência, passar por, ser reputado como etc. Ou seja, um faz-de-conta, e no caso do docetismo, quer dizer que Jesus era um mero faz-de-conta humano, uma embromação para iludir; isto é, Jesus parecia uma ser humano, mas não era; os neo-docetista querem que ele fosse um agênere, ou seja, uma ectoplasmia com tal intensidade, que todos confundiam com um ser humano de carne e osso. Allan Kardec com sua lógica, refutou definitivamente essa ideia:

 

Se Jesus estivesse, durante sua vida, nas condições dos seres fluídicos, não teria sentido nem dor, nem qualquer das necessidades corporais; supor que ele tivesse sido assim, é lhe retirar o mérito da vida de privações e de sofrimentos que ele escolheu como exemplo de resignação. Se tudo nele fosse apenas aparência, todos os atos de sua vida, o anúncio reiterado de sua morte, a cena dolorosa do jardim das Oliveiras, sua prece a Deus para afastar o cálice dos seus lábios, sua paixão, sua agonia, tudo, até seu derradeiro grito no momento de entragar o Espírito, teria sido um vão simulacro para dar ilusão sobre sua natureza e fazer crer no sacrifício ilusório de sua vida, uma comédia indigna de um simples homem honesto, quanto mais de um ser tão superior; em uma palavra, ele teria abusado da boa fé dos seus contemporâneos e da posteridade Tais são as consequências lógicas desse sistema, consequências inadmissíveis, porque o diminui moralmente, em vez de o elevar. Jesus teve, portanto, como todo mundo, um corpo carnal e um corpo fluídico, o que atestam os fenômenos materiais e os fenômenos psíquicos que assinalaram sua vida (Kardec, La Génese, Devy-Livre, Paris, França, 1952, Cap. XV, item 66. Tradução minha).

 

Para outros, Jesus foi um espírito que, desde sua criação, evoluiu segundo uma curva que pode ser analisada pela equação da reta y = x. Numa análise simplista da problemática evolutiva. É verdade que as entidades espirituais afirmam, nas Obras Básicas, que existem espíritos que desde o princípios seguiram o caminho do bem ou do mal. Eles estão usando uma metáfora interessante. Estão dizendo que a média dos comportamentos e atitudes desses espíritos tendeu para uma evolução mais rápida, quer fazendo o bem, quer o mal. Mas, significaria isso que nunca erraram ou que nunca acertaram? Não o creio, pois isto, apesar de apresentar-se como uma probabilidade, o é apenas no plano teórico; da mesma forma que existe uma probabilidade que eu atravesse, com meu corpo físico, uma parede, sem que haja um fenômeno mediúnico de transporte, pelo fato de minhas moléculas e as da parede sofrerem um arranjo que permita a interpenetração. Todavia, saindo do domínio da pura teoria, sabemos que tal fenômeno não acontece. Volto a dizer, o atravessar, pela parede, de um cômodo a outro, desde que não haja o uso de ectoplasma, sendo meu corpo levado para o hiperespaço, passando por uma dimensão acima das três deste universo, é um evento improvável.

Por outro lado, em sendo possível que espíritos possam desde o início seguir o caminho do bem ou do mal, e, utilizando-me dum conceito corrente na religião cristã, como Deus não faz apadrinhamentos por ser incompatível com a noção de Justiça, a explicação lógica é a de que não existe um padrão determinístico absoluto norteando a Criação, mas um padrão probabilístico. Sendo criados simples e ignorantes, os espíritos não teriam como “escolher” o caminho do bem, a não ser por acaso. Os seres vivem todos sob o império do meio e das circunstâncias, inclusive internas; nossas ações têm motivações climáticas, geográficas, culturais, psicológicas, hereditárias e fisiológicas. Como viemos evoluindo através de toda a escala biológica, conforme defende O Livro dos Espíritos, herdamos, desse jornadear evolutivo, instintos e condições arquetípicas que, inúmeras vezes, nos impõem comportamentos em total oposição às nossas crenças e educação. É a sombra que, como arquétipo, quando se apossa de nós, nos leva a comportamentos dos quais, passada a possessão, nos arrependem os, amargamente. E não somente a sombra, mas os complexos e os demais arquétipos, em sua feição negativa.

Pelo impositivo de passar por todos os patamares evolutivos (não por todas as espécies vegetais e animais), o princípio espiritual que transita da animalidade inconsciente para a autoconsciência não pode ter qualquer consciência do bem e do mal a ponto de poder somente fazer escolhas corretas. Isto é uma falácia, um absurdo lógico e uma impossibilidade real. O que pode acontecer é que, diante das situações de brutalidade naturais onde se desenvolvem, espíritos que estão despertando para o conhecimento da própria existência se comprometam uns mais, e outros menos, o que, ao longo das encarnações sucessivas, venha produzir uma diferença temporal no desenvolvimento de cada um. Assim, uns atingem o nível dos espíritos puros mais cedo do que outros, ou seja, conseguem resolver seus conflitos íntimos num tempo menor, o que não implica em que tenham seguido o caminho do bem desde o princípio. O máximo que se pode dizer é que seguiram um caminho com menos compromissos com o erro.

O conceito de seguimento do bem desde o princípio, faz da evolução espiritual o resultado de acontecimentos casuais, probabilísticos, onde a causalidade tem influência muito relativa. Na verdade, se está diante de um princípio de incerteza a nível comportamental. Condições aleatórias podem influir na escolha de uma atitude e, o que é mais importante, essa escolha deverá criar uma sensação tal de bem estar interior que facilite sua repetição em outra oportunidade, gerando assim um comportamento diferenciado, dentro daquilo que se pode denominar de acerto moral. Exemplificando: dois espíritos encarnados andam em fase primária de evolução. Confrontados com dois outros, de clã diferente, irão disputar espaço, como qualquer animal o faria. Os dois primeiros vencem a disputa. Os derrotados, feridos, tentam fugir. Um dos vencedores poderia esmagar-lhe o crânio com o seu tacape, enquanto o seu adversário busca escapar. Mas, por uma razão imponderável: achar que não vale a pena, pressa de acabar e voltar com sua caça para o grupo, esvaziamento da tensão pela alegria da vitória ou outro motivo, não o faz, deixando o inimigo ir-se. O outro não, fremindo de raiva, por motivos do mesmo jaez que o primeiro: foi atrapalhado quando ia pegar uma presa, sofreu um ferimento doloroso na disputa, etc., corre atrás do seu adversário e, estando ele completamente batido e sem condições de se defender, esmaga-lhe o crânio. Ora, é claro que as duas ações terão conseqüências psicológicas e espirituais, diversas. O segundo acaba de adquirir um complexo de assassino, ou seja, inicia-se ali a estruturação de um comportamente de desrespeito à vida do próximo. Quanto ao primeiro, não se comprometeu, ou seja, não criou um complexo, mas uma sensação agradável lhe percorrerá o psiquismo, pela compaixão involuntária que, opostamente ao seu amigo, adquiriu. É claro que aí pode ter início uma diferença evolutiva, se o primeiro repetir ações semelhantes, no futuro, e seu companheiro persistir na intolerância face aos adversários. É claro que não seriam essas duas atitudes isoladas que fariam a diferença evolutiva, mas poderiam ser a base para a construção de comportamentos moralmente diferenciados, que terminariam por influir na velocidade evolutiva dos nossos imaginários amigos trogloditas. (Extraido do livro do autor "A Diversidade das Escolhas).



Escrito por Djalma às 09h46
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Jung e a Mediunidade

 (extraido do livro "Jung e a Mediunidade", Djalma Argollo, Fundação Lar Harmonia, 2004)

A infância de Jung foi vivida num ambiente familiar tumultuado por uma convivência difícil de seus pais, que viviam em constantes conflitos. As diferenças antagônicas entre os cônjuges, geravam um ambiente saturado de emanações psíquicas desarmônicas, proporcionando fenômenos que podem ser classificados na categoria de assombrações:

 

Meus pais dormiam separados. Eu dormia no quarto de meu pai. Da porta que conduzia ao quarto de minha mãe vinham influências inquietantes. De noite, minha mãe tornava-se temível e misteriosa. Uma noite vi sair de sua porta uma figura algo luminosa, vaga, cuja cabeça se separou do pescoço e planou no ar, como uma pequena lua. Logo apareceu outra cabeça que também se elevou. Esse fenômeno repetiu-se umas seis ou sete vezes (Jung, 1997, p. 30).

 

O episódio é uma evidência de que as percepções paranormais de Jung começaram na infância. Nele podem ser identificados dois tipos específicos de percepções paranormais: i) uma sensibilidade, que é definida como a base para todas as outras faculdades:

 

Designamos assim (médiuns sensitivos) as pessoas suscetíveis de ressentir a presença dos Espíritos por uma vaga impressão, uma sorte de roçagem sobre todos os membros, da qual elas não podem se dar conta (Kardec, 1972, 159 e 164); ii) e vidência, que é a: faculdade de ver os espíritos, sendo tratada mais à frente, neste capítulo.

 

A sensibilidade o fazia perceber os problemas psíquicos e espirituais de sua mãe, culminando com a vidência ocasional de entidades espirituais que, possivelmente, a perturbavam. Descrevendo a personalidade de sua genitora, diz Jung que ela era uma pessoa comum, compartilhando das opiniões tradicionais de sua época e lugar, mas que, repentinamente, transformava-se, deixando surgir uma personalidade poderosa, sombria e imponente, dotada de autoridade:

 

...creio que ela também possuía duas personalidades: uma inofensiva e humana; a outra, pelo contrário, parecia temível. Esta ultima só se manifestava em certos momentos, mas sempre inesperadamente, e me causava medo. Falava, então, como que consigo mesma e suas palavras me atingiam profundamente, de tal maneira que em geral ficava calado (Jung, 1997, pp. 54-55).

 

A dupla personalidade de Emilie, com atitudes e palavras estranhas, a ponto de a tornarem temível e misteriosa, parecem sintomas claros de mediunidade de psicofonia. Como paranormal, vivendo as circunstâncias de uma vida matrimonial frustrante e conflituosa, desenvolveu – ao que tudo indica - uma obsessão [1] que a levou, inclusive, a ser internada, durante seis meses, no Hospital Psiquiátrico de Basiléia, em 1878, quando Jung estava com três anos de idade. Ainda sobre as personalidades alternantes dela, diz que as duas personalidades de sua mãe se diferençavam de maneira notável. Ele, por causa disso, chegou a ter sonhos de angústia, pois durante o dia ela era uma mãe perfeita, amorosa, mas à noite parecia temível; assemelhava-se a: uma vidente que ao mesmo tempo é um estranho animal, uma sacerdotisa no antro de um urso, arcaica e cruel. Cruel como a verdade e a natureza. Era a encarnação de uma espécie de natural mind [2].

Nascido numa família protestante do interior da Suíça, tendo como pai um Pastor, Jung foi criado numa atmosfera de tabus, moralismo e medo. Isto, acoplado às desavenças entre seus pais, provocou-lhe angústia, ansiedade e pressões psíquicas que se extravasavam em pesadelos diversos, cujo significado ele analisou ao longo de sua vida. Foi, também, sujeito a inúmeros acidentes que, em seus posteriores estudos, atribuiu a um desejo inconsciente de suicídio.

Aos sete anos de idade, numa de suas intermináveis crises de saúde, conta ele que teve pseudocrupe, seguido de ataque de sufocação. Nesses momentos, ficava deitado, em decúbito dorsal, sustentado pelo pai. Via, então um: Um círculo azul-brilhante, do tamanho da lua cheia e onde se moviam formas douradas que eu tomava por anjos, pairava sobre mim. Esta visão aliviava a angústia da sufocação cada vez que esta ocorria (Jung, 1997, p. 31). Embora este e outros episódios indiquem que ele pode, e no meu entender deve, ser classificado como médium vidente, deve-se levar em conta que crianças possuem uma capacidade natural de perceber fatos transcendentes às sensações ordinárias, conforme as pesquisas paranormais comprovaram. Quanto à mediunidade de vidência, é um tipo específico de paranormalidade, cujos possuidores são definidos da seguinte forma:

 

Os médiuns videntes são dotados da faculdade de ver os Espíritos. Existem os que possuem esta faculdade no estado normal, quando estão perfeitamente acordados, e dela conservam uma lembrança exata; outros não a têm senão em estado sonambúlico ou vizinho do sonambulismo. Esta faculdade raramente é permanente; ela é quase sempre efeito de uma crise momentânea e passageira (Kardec, 1972, 167).

 

 



[1] Trata-se do domínio que alguns Espíritos podem adquirir sobre certas pessoas. São sempre Espíritos inferiores que procuram dominar, pois os bons não exercem nenhum constrangimento... A obsessão apresenta características diversas que precisamos distinguir com precisão, resultantes do grau de constrangimento e da natureza dos efeitos que produz. Kardec, 1972, 237.

[2]Natural mind é o espírito da natureza, que anda (erro de impressão, a palavra correta é nada) tem a ver com os livros. Emana da natureza humana, tal como uma fonte que jorra da terra, e exprime a verdadeira sabedoria da natureza. As coisas são ditas tranqüilamente e sem complacência”. (De um seminário inédito de 1940, traduzido por Aniela Jaffé) (Jung, 1997, p. 56), nota de rodapé. Esta nota está mal traduzida, ao que parece, na edição que eu consultei.



Escrito por Djalma às 17h19
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Hamartía foi traduzido para o latim como pecatum, eis a origem do termo grego!

Sem desejar entrar em longas discussões de ordem etimológica, linguística e literária acerca do vasto campo semântico de hamartía, que, na realidade, tem várias "conotações" no curso do pensamento grego, porque não é aqui o local apropriado, é melhor começar pelo verbo grego hamartánein que já aparece em diversas passagens da Ilíada, V, 287; VIII, 311; XI, 233; XIII, 518 e 605; XXII, 279. .. onde significa mais comumente errar o alvo. Dos trágicos a Aristóteles, apesar da ampliação do campo semântico do verbo, também este sentido de errar o alvo é encontrado, alargado com o de errar, errar o caminho, perder-se, cometer uma falta. . . Donde se pode concluir que o vocábulo hamartía, que é um deverbal de hamartánein, nunca poderá ser traduzido até os Septuaginta[1] por "pecado". Diga-se, aliás, de passagem, que também o latim peccatum, fonte de "pecado", jamais possui, até o Cristianismo, tal significado: peccatum em latim é "erro, falta tropeço[2], abstração feita de culpa moral. Assim hamartía deve-se traduzir por "erro, falta, inadvertência, irreflexão", existindo, claro está, uma "graduação" nessas faltas ou erros, podendo ser os mesmos mais leves ou mais graves, como já observara Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.)[3]

Acrescente-se, por último, que, na Grécia antiga, as faltas eram julgadas de fora para dentro: não se julgavam intenções, mas fatos, reparações, indenizações à vítima, se fosse o caso.

Quanto a génos pode o vocábulo ser traduzido, em termos de religião grega, por "descendência, família, grupo familiar" e definido como personae sanguine coniunctae, quer dizer, pessoas ligadas por laços de sangue. Assim, qualquer falta, qualquer hamartía cometida por um génos contra o outro tem que ser religiosa e obrigatoriamente vingada. Se a hamartía é dentro do próprio génos, o parente mais próximo está igualmente obrigado a vingar o seu sanguine coniunctus. Afinal, no sangue derramado está uma parcela da vida, do sangue e, por conseguinte, da alma do génos inteiro. Foi assim que, historicamente falando, até a reforma jurídica de Drácon ou Sólon, famílias inteiras se exterminavam na Grécia. É mister, no entanto, distinguir dois tipos de vingança, quando a hamartía é cometida dentro de um mesmo génos: a ordinária, que se efetua entre os membros, cujo parentesco é apenas em profano, mas ligados entre si por vínculo de obediência aos gennêtai, quer dizer, aos chefes gentílicos, e a extraordinária, quando a falta cometida implica em parentesco sagrado, erínico, de fé — é a hamartía cometida entre pais, filhos, netos, por linha troncal e, entre irmãos, por linha colateral. Esposos, cunhados, sobrinhos e tios não são parentes em sagrado, mas em profano ou ante os homens. No primeiro caso, a vingança é executada pelo parente mais próximo da vítima e, no segundo, pelas Erínias.

A essa ideia do direito do génos está indissoluvelmente ligada a crença na maldição familiar, a saber: qualquer hamartía cometida por um membro do génos recai sobre o génos inteiro, isto é, sobre todos os parentes e seus descendentes "em sagrado" ou "em profano".

Esta crença na transmissão da falta, na solidariedade familiar e na hereditariedade do castigo é uma das mais enraizadas no espírito dos homens, pois a encontramos desde o Rig Veda até o nordeste brasileiro, sob aspectos e nomes diversos. No citado Rig Veda, o mais antigo monumento da literatura hindu, composto entre 2000 e 1500 a.C., encontramos esta súplica: "Afasta de nós a falta paterna e apaga também aquela que nós próprios cometemos".

A mesma ideia era plenamente aceita pelos judeus, como demonstram várias passagens do Antigo Testamento, como está em Êxodo 20,5: "Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso, que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos, nos netos e bisnetos daqueles que me odeiam".

Talvez não fosse inoportuno lembrar que há uma grande diferença entre o homem de lá e o homem de cá: o viver coletivo e o nosso viver individual.

 

(Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega, vol. I, 14ª edição, 2000, Editora Vozes, Petrópolis - Brasil, pp. 76-78).



[1] Septuaginta, Os Setenta, é nome que deve sua origem à lenda, segundo a qual setenta e dois sábios judeus teriam traduzido, em setenta e dois dias, o Antigo Testamento para o grego. Na realidade, tal versão foi feita por sábios judeus da diáspora, em Alexandria, provavelmente de 250 a 150 a.C. (Nota de rodapé nº 59, no original).

[2] O grande poeta latino Quinto Horácio Flaco (65-8 a.C.) nos dá, Epist., l, l, 9, o sentido exato, "físico", de peccare:

Solue senescentem mature sanus equum, ne

peccet ad extremum ridendus et ilia ducat:

"Tem o bom-senso de desatrelar a tempo teu cavalo, que envelhece, a fim de que ele, em meio ao riso, não venha a tropeçar e perder o fôlego" (Nota de rodapé nº 60, no original).

[3] Parad., 3, 1:Alius magis alio uel peccat uel peccat uel facit: "Há uma graduação nas nossas faltas como em nossos méritos" (Nota de rodapé nº 61, no original).



Escrito por Djalma às 21h02
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Inícios do Espiritismo

Quando o Espiritismo teve início? É uma questão aparentemente fácil de responder. No movimento espírita qualquer um poderá afirmar, sem sequer pensar: O Espiritismo surgiu em 18 de abril de 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos! E, em continuação, esse imaginário profitente diria: Existe apenas um Espiritismo, pois até o termo foi criado por Allan Kardec, conforme se poderá verificar no primeiro parágrafo da Introdução ao estudo da Doutrina Espírita, de O Livro dos Espíritos. E o suposto interlocutor teria razão:

 

Para as coisas novas é preciso palavras novas, assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inseparável do múltiplo sentido dos mesmos termos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma acepção bem definida; dar-lhes uma nova para aplicá-las à doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já em si numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que creia haver em si outra coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que acredite na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras ESPIRITUAL e ESPIRITUALISMO, empregaremos, para designar essa ultima crença, as de espírita e espiritismo, cuja forma recorda a origem e o sentido radical, e que, por isto mesmo, têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, reservando à palavra espiritualismo sua acepção própria. Diremos então que a doutrina espírita ou o espiritismo tem por princípios as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do espiritismo serão os espíritas ou, se o quiserem, os espiritistas.

Como especialidade, o Livro dos Espíritos contém a doutrina espírita; como generalidade, ele se liga à doutrina espiritualista da qual apresenta uma das fases. Tal é a razão pela qual ele traz sobre o seu título as palavras: Filosofia espiritualista (Kadec, 2007, p. 15).

 

 Parece que contra fatos não há argumentos, e o espírita representativo, que se fez médium da quase totalidade dos seus compares, está plenamente certo. Mas, será que está mesmo? Depende do que se entenda pelo neologismo criado por Kardec: espiritismo. Esta palavra é composta por um radical espírito, que etimologicamente vem do latim spiritus, que significa sopro, vento, espírito; e um um sufixo ismo, que significa doutrina de... Logo, espiritismo quer dizer: doutrina dos espíritos. E aqui é que se põe a dúvida que coloquei mais acima. De acordo com a etimologia, toda e qualquer doutrina que tenha sua origem no mundo espiritual, quer dizer nos espíritos, é espiritismo! Não será o que se deve entender da seguinte afirmação de Kardec?

 

Nunca dissemos que a doutrina espírita fosse de invenção moderna; o espiritismo sendo uma lei da natureza, deve ter existido desde a origem dos tempos, e sempre nos esforçamos de provar que se encontram traços dela na mais alta Antigüidade (Kardec, 2007, questão 222).

 

E atente-se para a resposta dos espíritos a uma indagação de Kardec:

 

É também a essa lembrança (do período entre existëncias) que se devem certas crenças relativas à doutrina espírita, e que encontramos em todos os povos?

Esta doutrina é tão antiga como o mundo; por isso a encontramos por toda a parte, o que é uma prova da sua veracidade. O Espírito encarnado, conservando a intuição do seu estado de Espírito, tem a consciência instintiva do mundo invisível, mas freqüentemente ela é alterada pelos preconceitos e a ignorância à qual misturam a superstição (Kardec, 2007, questão complementar à 221. Esclarecimento e destaque meus).

 

Então, tanto Kardec e os espíritos que participaram da confecção das Obras Básicas, concordam em que espiritismo e doutrina espírita são muito mais do que uma elaboração iniciada num momento específico, mas um processo em desenvolvimento desde a mais alta Antigüidade. Um processo que os espíritos vêem elaborando ao longo da História.



Escrito por Djalma às 20h45
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